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Cegueira coletiva

Eu tenho uma shih tzu chamada Mel. Os cães da raça dela costumam ser alérgicos e apresentar outros problemas de saúde. No caso da Melzinha, além da alergia crônica, ela também necessita de atenção com os olhos. Preciso pingar colírio todos os dias, o que acabei de fazer, aliás.

Depois de cuidar dela, lembrei-me de um clássico da literatura contemporânea: Ensaio sobre a cegueira de José Saramago.

Faz tempo que li o livro, já nem me recordo ao certo quando foi. Suponho ter sido por volta do ano 2000, ou seja, um quarto de século atrás.

Lembro-me, ainda, de uma entrevista de Saramago a respeito do surgimento do enredo. Estava ele em um restaurante e, enquanto esperava por seu pedido, passou a imaginar um mundo de cegos. Como seria se, de uma hora para outra, todos deixássemos de enxergar? Indagou-se.

Não posso passar batido por minhas próprias cegueiras. Aqui a metáfora é bem óbvia: refiro-me às minhas limitações.

Igual a você, sou um inepto. Por mais que me esforce, estarei sempre lambendo a superfície do saber.

Graduado em engenharia de produção mecânica, não domino nada de elétrica ou civil, por exemplo. Falo isso para evidenciar que a informação é altamente especializada e segmentada.

 O que sei eu de filosofia, medicina, direito, literatura, linguística ou psicologia? 

Não tenho como escapar da ignorância porque a parcela do conhecimento que não possuo é infinitamente superior àquilo que supostamente entendo.

Diante da vastidão de sabedoria que jamais acumularei nessa vida, resta-me somente a humildade, pois é dessa forma que abro espaço para a curiosidade.

Os curiosos são os ignorantes despertos. A gente sabe que não vai dar tempo e, mesmo estando consciente, encontra motivação para avançar - ainda que a passos lentos - sobre a escuridão tão natural e elementar.

Tento ver um pouco além a cada dia. Não serei um sábio, no entanto gostaria de me tornar um pouco menos tolo.

É a história de uma evolução: hoje a minha estupidez é menor em relação a ontem e sigo um passo de cada vez rumo ao desconhecido. Qual um ignorante iluminado que apenas insiste em seguir em frente.

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