
Caminhando pela praia de Icaraí em Niterói, me deparei com a seguinte cena: uma moradora de rua dava banho no filho pequeno com balde e caneca. A água, naturalmente, estava fria.
Mas o menino, de uns três anos de idade, se divertia. As crianças, de fato, se contentam com pouco. Muitas das vezes, com quase nada. O problema se instala quando elas crescem.
Em um país desigual como o nosso, não é difícil ponderar sobre privilégios. No entanto, a questão é mais complexa do que parece.
Se você consegue ler esse texto e compreendê-lo sem dificuldades, então num Brasil de analfabetos funcionais você é um privilegiado.
Por outro lado, sabe aquela sua amiga de classe média que luta há anos para engravidar? Pois bem, a mendiga de Icaraí, nesse caso, é a privilegiada. Ela já tem um filho e talvez nem seja o único.
Crianças brancas e de classes médias e altas costumam ser tão alérgicas, não é verdade? Já o garotinho sem-teto negro lá da praia, pelo menos a princípio, parecia esbanjar saúde.
A questão é que no fim do dia somente você é capaz de sentir a vida tal como ela se apresenta exclusivamente para você.
Por isso, julgamentos quase sempre são não apenas precipitados, mas tendentes ao erro básico das aparências enganosas.
Vai saber se aquele seu amigo rico e bem-sucedido não é também atormentado pelos próprios pensamentos. Será mesmo que você gostaria de estar na pele dele motivado apenas pelo dinheiro que lhe faz tanta falta?
Por isso, acolho os meus privilégios da mesma forma como suporto as minhas carências que há tempos aprendi a domar. Talvez seja esse o segredo. Não de uma vida ausente de problemas, mas de uma existência que se encaixa bem dentro de mim.